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Hiperpaternidade: quando mais é demais.

Nossos filhos vão aprender quase nada do que dizemos, e quase tudo do que fazemos.

Quando publiquei este artigo pela primeira vez, ainda não havia conhecido o termo Hiperpaternidade, e o título original era "Como ensinamos nossos filhos a serem egoístas". O conceito de Hiperpaternidade vem para colocar um nome claro e ajudar a identificar a atitude do excesso que torna a proteção prejudicial e contrária ao desenvolvimento. Por isso uma nova versão, revisada e incluindo a palavra no título.

Seres humanos têm muitos modos de aprendizado, mas a repetição de uma atitude é certamente um dos mais eficientes; especialmente na primeira infância, onde se forma o essencial da personalidade. Na sequência progressiva de “participação no mundo”, mãe e pai são os primeiros “outros” que encontramos na vida, até mesmo antes que o conceito de “outros” esteja plenamente estabelecido; porque ainda em formação. Neste sentido, o primeiro “outro” talvez seja costumeiramente representado pelo Pai; eventualmente pelos irmãos; posto que durante muito tempo a simbiose filho/mãe impede que este efetivamente perceba aquela como “outro”’ o que, eventualmente; começa a ser de todo modo introjetado mais adiante. Assim, é nesta progressão que se inicia a relação da criança com o que será sempre, de algum modo, percebido como “o outro”; aquele que não é “ela mesma”.

Vale a pena olharmos com atenção para a mensagem que o “outro” traz; e o espaço que ele ocupa no início da vida, na primeira infância, porque sabemos, isto vai marcar bastante esse indivíduo por muito tempo, e de modo principalmente inconsciente. O que, então, nos ensinam; e o que ensinamos, sobre relacionar-se com o “outro”; lá no início?

Por um lado, há crianças que convivem com pais egoístas, auto-centrados; às vezes por inclinação própria; às vezes porque são eles mesmos prisioneiros de vícios; sejam de caráter ou comportamento; ou de dependências químicas, por exemplo. Nestes casos, a criança vai perceber, desde cedo, um “outro” que não se importa o suficiente com ela. Que relega a sua existência a um segundo plano, ou até mesmo chegar a perceber-se como um estorvo. Algo tremendamente negativo; que traz uma carga de carência e falta que dificilmente vai deixar de imprimir marcas profundas; além de; pelo exemplo; ensinar que “o outro” merece pouco, ou quase nada, de mim. Deste modo, estaremos criando alguém que terá grande dificuldade de empatia; e estamos proporcionando que haja alta probabilidade que esta criança venha a considerar e sentir como “muito natural” que se passe por cima das necessidades do outro para chegar onde ela quer. Ou seja, uma forma bastante eficaz de ensinar o egoísmo. Essa forma; evidentemente negativa, não apresenta mistério algum para demonstrar como se cria uma criança egoísta.

Mas existe outra; menos “evidente” ou óbvia, pela qual se cria um ser humano profundamente egoísta e auto-centrado. Será aquela criança a quem, desde sempre, e por toda a sua primeira infância, o “outro” foi apresentado como “irrelevante” ou quase “inexistente”. Irrelevante ou inexistente como ser humano completo, autônomo e independente, com necessidades, desejos e vontades naturais e humanas. Altamente relevante no “papel” de cuidador daquela criança; mas completamente ignorado em suas necessidades como indivíduo. Isto é precisamente o que acontece com crianças cujos pais e mães agem com a “infinita doação” de esquecerem-se completamente de si mesmos.

É evidente que existem momentos de crises ou problemas graves, onde a saúde ou a vida da criança está de fato em risco, e nos quais os pais deixarão (naturalmente, e ainda bem!) qualquer coisa de lado para cuidar dela. Mas, falamos aqui da criança que no cotidiano aprende a perceber o pai e a mãe como “indivíduos inexistentes”; no sentido que eles sejam reconhecidos apenas como “instrumento ou ferramenta" para atender os desejos e caprichos da criança. Esta criança guardará esta lição dentro de si com grande apego: “o outro é bom e existe para servi-me e me fazer feliz”. E, por oposição; “o outro é mau, e não existe, se não é para servir-me e me fazer feliz”.

Deste modo também se cria um ser humano que carecerá da capacidade de empatia, de reconhecer o valor e a existência intrínseca do outro. O valor do “outro” passará a ser condicionado ao seu papel em servir de instrumento para o bem estar daquele ser. Portanto, qualquer “outro”; mais adiante na vida, que queira ter “valor” e existência individuais; fazendo algo diferente de atender às vontades e caprichos daquele ser; será automaticamente visto como “mau”; “equivocado”; ou; naturalmente: egoísta.

A lição essencial ensinada por pais e mães que se anulam completamente como indivíduos para viverem exclusivamente como ferramentas para o bem-estar e satisfação de cada pequeno desejo da criança é: Você é MAIS do que o “outro”. Você merece mais do que qualquer outro possa merecer. Você é especial; no sentido de que está ACIMA dos demais; e, portanto, seus desejos estão ADIANTE e vem ANTES dos desejos dos demais.

Deste modo eu ensino ao meu filho que eu não existo; ensino que o que eu sinto ou necessito pode ser ignorado sem consequências. Ensino que tudo que me diz respeito pode perfeitamente ser varrido do mapa com uma birra, um choro, um berro; um pedido ou um olhar carente. Ensino, a uma mente inocente e uma personalidade em formação que é isso que ele pode esperar, ou, talvez, até, exigir do “outro” no mundo.

Evitar que seja aprendida essa lição tão indesejada não requer grandes filosofias ou complexidades; aliás, é bem simples: a gente começa, desde cedo e desde sempre; a dizer à criança coisas como “agora não, você vai precisar esperar um pouco”. A gente aprende a dizer para as crianças coisas perfeitamente normais e comuns, que a gente diria (e diz) para qualquer ser humano que a gente ama; como por exemplo: “eu quero”, “eu preciso” ou, “desculpe, mas neste momento, eu realmente não posso.” Claro, as crianças são seres em desenvolvimento e muitas vezes não sabem esperar, aguardar, ter calma; entender que o outro também “sente; quer; precisa e necessita”. Pois é. Vai ser preciso insistir, persistir, fazer diversas vezes; até que o aprendizado aconteça. Exatamente como tudo que você escolheu ensinar ao seu filho, não é?

E aí, me vem um outro lado desta reflexão: talvez a gente não queira. Talvez a gente não queira mesmo ensinar que eles são seres como todos os outros, e com os mesmos direitos de todos os outros seres humanos. Talvez, apesar de todas as palavras bonitas sobre igualdade e tratar o outro com dignidade e gentileza, a gente queira mesmo que o nosso filho se sinta superior aos outros seres humanos. Que ele se sinta mesmo um rei, um imperador cuja vontade soberana é mais importante que a existência dos outros. 

Se for esse nosso objetivo, aí sim, muitas destas coisas que “ensinamos” faria pleno sentido.

E aí, então, cabe perguntar: por que nós gostaríamos de ensinar isso?

Talvez porque vejamos os filhos como extensão de nós mesmos? Se ele for tratado como imperador do mundo, talvez isso seja um grande afago ao meu próprio ego? Talvez eu tire disto um enorme ganho emocional? Talvez um ganho emocional muito maior do que eu esteja disposto a abrir mão e desapegar? Afinal, o potencial ganho nesta trocar seria “apenas” …. preparar um ser humano melhor, que seja capaz de olhar o outro como igual e com isso... fazer um mundo melhor?

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